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Não sabendo escrever,
Emociono-me no papel.
Não sabendo me emocionar,
Escrevo-me no papel.
Se não posso te possuir,
Exponho-te esferográfico
Onde letras se entrelaçam
Em palavras...
E não me contam
mais nada de ti,
A não ser:
Um amor
antipoético...Setembro de 1991.
Foto de Igor Nazario
Invade todos os porões.
Inunda crateras, superfícies
lunares, góticas, banais...
Mesmo sem nexo:
transborda-me
voluptuosa, calmamente.
Faze parte de mim.
E, se mesmo assim,
ficares tão só,
apesar,
do elo, anelo ou rima,
Vive-me.
Toma das minhas narinas
o teu ar.
Caminha sobre os meus pés.
Alimenta-te pela minha boca.
Os meus sentidos serão
os teus sentidos.
A minha vida será
a tua vida.
E, então,
Em cada centelha de ti,
estarei presente.
silenciosamente
pelo amor.Agosto de 1991.
Foto de Igor Nazario
Choram lágrimas secas.
Amam por ódio profundo.
Sofrem com a alegria
daqueles que sabem sonhar.
Brotam em ninhos perfídios.
Segregam laços temerosos
para aos que, nesta vida,
possuem um brilho no olhar.
Seus corações, um dia foram
sedentos de compreensão e amor.
Mas eis que esse tempo se acaba
e surge a desesperança
que ao seu termo balança
e transforma em monstro
a flor.1987.
Foto de Igor Nazario
Fujo de mim,adiando invariavelmente
o meu encontro comigo:
não desvendando as cruas verdades
que me invadem a alma,
dilacerando os grilhões
da angústia.
Ah!!! Se eu pudesse
me esconder em mim e
não viver esta impossibilidade
de possíveis consequências...
Não sentir este doce fel
presente da ausência.
O transbordar de tristezas,
águas bravias de mar revolto,
faz calar-me,
emudece o meu espírito
e o faz tão completamente
que já não sinto mais
dor e sofrimento,
pois esses
são todos eu.
Então,
meus olhos não choram
quando quase o fazem.
Recolhem as lágrimas
para dentro de mim...
Não choro
pela fragilidade do pranto,
Não choro
pelo tormento da vida.
O motivo
de gélidas recordações
não me deixam lastimar,
perder-me em lamúrias.
Sinto-me desesperança,
petrificada e nítida a
esvair-me forças e punhos.
Deixo-me ficar
tão sombriamente quieta que,
por infindáveis momentos,
esqueço-me viva
e só do meu âmago
os ecos me fazem desperta.
A enferma criatura
é causa latente do
mal que me alcança
e se bem o sabe
finge não ser.
Porém,
não reclamo intuito
ou razão:
assim estou só e
pertence a mim mesma
o claustro, a melancolia
do meu sentimento
platonicamente solitário
de bem querer.
Fevereiro de 1992
Foto de Igor Nazario
Cantemos o amor
dos loucos e vadios,
dos sábios oprimidos
que se deixam amar
sem pudor ou regras.
Louvemos o amor
das belas prostitutas,
das virgens: casta insana,
que amam sem a culpa
de seus corpos doarem.
Bendigamos o amor
dos poetas, ingênuos tolos,
de bárbaros, toscos cruéis,
que amam tão doentios
morrendo do seu amor.
Fevereiro de 1992.
Foto de Igor Nazario
Que sejam vulgares as minhas palavras,
doce encantamento de sons.
Ressonâncias imperfeitas de vida
em vazio silêncio:
quebrantos de dor, bruscas emissões de ar.
Não que invadam mais que a mim.
São minhas, totalmente minhas,
tirana e sadicamente.
Não as concedo libertinas,
Nem as deixo ficar deliciosas
sob lábios retocados do mais
profundo deboche.
De tal modo, vingativas e torpes
profetizam existências,
profanam átrios, vidas e corpos.
Instigam a desvendá-las nuas
sem o casto pudor de virgem
em prostituta sedução.
Deleite.
Habitam-me em êxtase,
levianas e amorais.
Escárnio de múltiplos orgasmos.
Esgotando-se, enfim,
Boca e saliva,
Dente e língua...
Coito.1991
Preciso
das tuas exposições
solares e noturnas
esclarecendo meus
absurdos mudos,
aborrecendo o infeliz,
grato e gentil
sentimentalóide.
Preciso
das tuas faces
claras e incógnitas
rememorando
a tua bondade sádica,
passível e normal,
narciso-psicótica
do teu bem querer.
Preciso
do ar puro e perfeito
dos teus vícios
invadindo meu
triste e casto prazer.
Preciso
do irracional e do louco
das tuas desvairadas razões,
além da alma
sobrehumana e andróide.
Preciso da tua imprecisão.Fevereiro de 1992