quarta-feira, 17 de março de 2010

Vivendo....


A minha fúria é insana. Porque somos loucos ou não sabes: o infinito e o eterno são frutos do desvario. A maledicência também o é.
Mas por favor: não digas a verdade aos que não podem suportá-la.
Pois ela é fardo aos lúcidos, aos racionais. E é leve àqueles que se entregam com brio à magia incessante da própria existência. Eis a conclusão: somos enlouquecidos por doses metafísicas de realidade. Cruel perspectiva de morte lenta e agonizante. Entretanto, entrego-me à vida e aos sonhos e tempestades translúcidos de poesia, embriagada pelo perfume das flores ao vento. Respiro o mar, tomo-lhe a forma azul. Navego as nuvens sem pressentir as ondas de intranquilidade. Sou o todo e o nada conduzidos ao irreal e imaginário poder de escolha. Livre, sob o sol gentil e prazeroso, alço um vôo liberto. Gaiata, faço cúmplices a lua e as estrelas. Já não existirei: serei brisa, gotículas de orvalho ao amanhecer, choro convulso de alegria de tardes clorofila-azul-celestes. Meu corpo o prolongamento de invisível mundo do tão natural absurdo: viver...
Fevereiro de 1992.

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