sábado, 20 de março de 2010

Antipoesia


Não sabendo escrever,
Emociono-me no papel.

Não sabendo me emocionar,
Escrevo-me no papel.


Se não posso te possuir,

Exponho-te esferográfico

Onde letras se entrelaçam
Em palavras...

E não me contam
mais
nada de ti,
A não ser:
Um amor
antipoético...


Setembro de 1991.
Foto de Igor Nazario

Doação


Invade todos os porões.
Inunda crateras, superfícies
lunares, góticas, banais...
Mesmo sem nexo:
transborda-me
voluptuosa, calmamente.
Faze parte de mim.
E, se mesmo assim,
ficares tão só,
apesar,
do elo, anelo ou rima,
Vive-me.
Toma das minhas narinas
o teu ar.
Caminha sobre os meus pés.
Alimenta-te pela minha boca.
Os meus sentidos serão
os teus sentidos.
A minha vida será
a tua vida.
E, então,
Em cada centelha de ti,
estarei presente.
silenciosamente
pelo amor.


Agosto de 1991.

Foto de Igor Nazario

Morfose


Choram lágrimas secas.
Amam por ódio profundo.
Sofrem com a alegria
daqueles que sabem sonhar.

Brotam em ninhos perfídios.
Segregam laços temerosos
para aos que, nesta vida,
possuem um brilho no olhar.

Seus corações, um dia foram
sedentos de compreensão e amor.
Mas eis que esse tempo se acaba
e surge a desesperança
que ao seu termo balança
e transforma em monstro
a flor.


1987.

Foto de Igor Nazario

Chorar


Fujo de mim,
adiando invariavelmente
o meu encontro comigo:
não desvendando
as cruas verdades
que me invadem a alma,
dilacerando os grilhões
da angústia.
Ah!!! Se eu pudesse
me esconder em mim e
não viver esta impossibilidade
de possíveis consequências...
Não sentir este doce fel
presente da ausência.

O transbordar de tristezas,
águas bravias de mar revolto,
faz calar-me,
emudece o meu espírito
e o faz tão completamente
que já não sinto mais
dor e sofrimento,
pois esses
são todos eu.
Então,
meus olhos não choram
quando quase o fazem.
Recolhem as lágrimas
para dentro de mim...
Não choro
pela fragilidade do pranto,
Não choro
pelo tormento da vida.

O motivo
de gélidas recordações
não me deixam lastimar,
perder-me em lamúrias.
Sinto-me desesperança,
petrificada e nítida a
esvair-me forças e punhos.
Deixo-me ficar
tão sombriamente quieta que,
por infindáveis momentos,
esqueço-me viva
e só do meu âmago
os ecos me fazem desperta.

A enferma criatura
é causa latente do
mal que me alcança
e se bem o sabe
finge não ser.
Porém,
não reclamo intuito
ou razão:
assim estou só e
pertence a mim mesma
o claustro, a melancolia
do meu sentimento
platonicamente solitário
de bem querer.

Fevereiro de 1992

Foto de Igor Nazario

sexta-feira, 19 de março de 2010

Louvação


Cantemos o amor
dos loucos e vadios,
dos sábios oprimidos
que se deixam amar
sem pudor ou regras.

Louvemos o amor
das belas prostitutas,
das virgens: casta insana,
que amam sem a culpa
de seus corpos doarem.

Bendigamos o amor
dos poetas, ingênuos tolos,
de bárbaros, toscos cruéis,
que amam tão doentios
morrendo do seu amor.

Fevereiro de 1992.

Foto de Igor Nazario

Poetizando...


Que sejam vulgares as minhas palavras,
doce encantamento de sons.
Ressonâncias imperfeitas de vida
em vazio silêncio:
quebrantos de dor, bruscas emissões de ar.
Não que invadam mais que a mim.
São minhas, totalmente minhas,
tirana e sadicamente.
Não as concedo libertinas,
Nem as deixo ficar deliciosas
sob lábios retocados do mais
profundo deboche.
De tal modo, vingativas e torpes
profetizam existências,
profanam átrios, vidas e corpos.
Instigam a desvendá-las nuas
sem o casto pudor de virgem
em prostituta sedução.
Deleite.
Habitam-me em êxtase,
levianas e amorais.
Escárnio de múltiplos orgasmos.
Esgotando-se, enfim,
Boca e saliva,
Dente e língua...
Coito.


1991

Necessitude

Preciso
das tuas exposições
solares e noturnas
esclarecendo meus
absurdos mudos,
aborrecendo o infeliz,
grato e gentil
sentimentalóide.

Preciso
das tuas faces
claras e incógnitas
rememorando
a tua bondade sádica,
passível e normal,
narciso-psicótica
do teu bem querer.

Preciso
do ar puro e perfeito
dos teus vícios
invadindo meu
triste e casto prazer.

Preciso
do irracional e do louco
das tuas desvairadas razões,
além da alma
sobrehumana e andróide.

Preciso da tua imprecisão.

Fevereiro de 1992

quinta-feira, 18 de março de 2010

Caretas


Caricato o seu rosto.
Intoleráveis noções de
humanismo selvagem
despertam o interesse
suburbano da dor
suportável, mas
incontinente.
Dentes deixam
à mostra
forças estranhas,
estranhos desejos
em meio ao todo
emaranhado de confusões
verbais e banais
como a guerra interior.
No céu,
bobagens ao léu.

Platônico

Os seus olhos são calmaria
que aos meus
perturbam e inquietam.
Porém, observando-os,
serena a alma:
encontro o afago
das suas mãos
que não me alcançam
tão fugidia,
presente ao longe
perto e distante.
Mas a eles clarividentes
pertencem meus pensamentos
e querer
e sou cativa
e sem refugo, descanso
amo....

Janeiro de 1992

Divagações

Lágrimas molham o papel
que continua seco.
Intangíveis gotas de orvalho
tão reais e imaginárias
quanto à dilacerante dor.
Inexistentes facções de morte
na eterna vida de segundos
loucos e desvairados,
irracionais e fúnebres.
Incoerente a existência.
Tão complacente
a morte.

Janeiro de 1992

Melancólica

Fria manhã.
Não tão fria quanto os meus sentidos.
Também os seus gélidos olhos
não compreendem a imperceptível
melancolia da alma.
Se é que a tem.
Alma, espírito, corpo confundem-se
em meio à tristeza, doce amargura,
cancro indelével
e faz brotar do nada,
o nada.
E isso é tudo
que não pode fazer por mim
pois
suas mãos, braços, pernas, membros
são inúteis.

Julho de 1991

quarta-feira, 17 de março de 2010

Inanimados

Ode aos parasitas,
legítimos puritanos da vida
em usufruto de si mesmos,
não importa a forma humana
que tenha a dor
do silêncio e solidão.

Ode aos infelizes,
capazes de lágrimas
intrínsecas de sadismo
e sedução à felicidade alheia.

Ode aos idiotas,
pós graduados.
E a vida sem o sentido
de ser vida em
páginas de jornais
desbotados pelo tempo.

Se, ao menos,
destilassem fôlego
os débeis corpos
tratariam de sorrir.

Novembro de 1991.

Vivendo....


A minha fúria é insana. Porque somos loucos ou não sabes: o infinito e o eterno são frutos do desvario. A maledicência também o é.
Mas por favor: não digas a verdade aos que não podem suportá-la.
Pois ela é fardo aos lúcidos, aos racionais. E é leve àqueles que se entregam com brio à magia incessante da própria existência. Eis a conclusão: somos enlouquecidos por doses metafísicas de realidade. Cruel perspectiva de morte lenta e agonizante. Entretanto, entrego-me à vida e aos sonhos e tempestades translúcidos de poesia, embriagada pelo perfume das flores ao vento. Respiro o mar, tomo-lhe a forma azul. Navego as nuvens sem pressentir as ondas de intranquilidade. Sou o todo e o nada conduzidos ao irreal e imaginário poder de escolha. Livre, sob o sol gentil e prazeroso, alço um vôo liberto. Gaiata, faço cúmplices a lua e as estrelas. Já não existirei: serei brisa, gotículas de orvalho ao amanhecer, choro convulso de alegria de tardes clorofila-azul-celestes. Meu corpo o prolongamento de invisível mundo do tão natural absurdo: viver...
Fevereiro de 1992.

Adolescendo....

Minha pretensão não é ser poeta. Não me ferem as palavras. Não sei encantá-las ao vento. E não entendo de rimas ou limas. Só brinco despreocupadamente com sentimentos. É o que me basta...
Fevereiro de 1992.

Indisciplina

O espaço: Vitória, Espírito Santo, Brasil, América do Sul, Terra, Sistema Solar Universo.

O tempo: Dezesseis de março de 2010, 13:01 horas.

Quem: Uma mulher comum, adolescentemente madura, que varia entre sete, dezessete e setenta anos.

Hoje resolvi criar um blog. Nunca pensei em ter um antes, mas diante de tantos "escritinhos" adolescentes, jovens, pueris e alguns já maduros, cheios de sonhos e ternuras, indagações, inquietações... mutantes, leves alguns e outros nem tanto... Resolvi deixá-los num espaço virtual ao invés de vê-los perdidos em gavetas ou em cantos desorganizados. Estou os escondendo só prá mim, publicamente e virtualmente, mas qualquer amigo, passante, curioso é muito bem vindo: desde que seja interessantemente antagônico, nem cultive uma ordem milimétrica de si mesmo - amo a indisciplina bem estruturada.

Bjs virginianos.